Ninfomaníaca – Vol. I

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Ontem assisti ao filme Ninfomaníaca, do cineasta Lars von Trier, mesmo que fez dois outros filmes que gostei: Dogville e Melancolia. Eu confesso que queria que os dois volumes do filme fossem lançados simultaneamente, mas se não tem jeito. Espero apenas que a segunda parte supere a primeira que já foi bem interessante.

A análise de Thiago Siqueira, para o portal Cinema com Rapadura, é bastante coerente com minha impressão do filme

Ao contrário de outras espécies, os humanos racionalizam o ato do coito. O que é um mero instinto para a maioria dos animais, ganha contornos emocionais para as pessoas, que atribuem ao sexo um valor moral pela cultura na qual o indivíduo se insere, seja ela mais liberal ou conservadora. O cinema de Lars von Trier lida com as angústias humanas (focando mais recentemente em comportamentos depressivos e autodestrutivos), o que torna este “Ninfomaníaca – Vol. I” um passo lógico na filmografia do cineasta.

A despeito de toda a polêmica que cercou sua produção, o público não encontrará, ao menos nesta primeira metade da obra (dividida em dois volumes), nada que o ser humano ocidental médio maior de idade não tenha dito ou feito em sua privacidade. Há uma franqueza ao se tratar de sexo no cinema que o grande público pode não estar  acostumado, mas nada excessivamente chocante. Filmes como“Azul é a Cor Mais Quente” ou “9 Canções” foram muito mais ousados e explícitos, do ponto de vista visual.

O fato é que a narrativa proposta por Trier não foi comprometida por eventuais cortes requisitados por produtores. A produção não é um espetáculo pornográfico. Sim, o sexo é uma pedra fundamental na jornada mostrada na tela, mas o ato em si não é o fim, mas sim um meio para a narrativa ser exposta.

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Na trama, Seligman (Stellan Skarsgård) encontra uma mulher machucada e inconsciente em um beco e a leva para sua casa até que ela se recupere. Ela, Joe (Charlotte Gainsbourg), passa então a narrar para o seu benfeitor sua história, e continuamente afirma que seu comportamento sexual fez com que merecesse o espancamento do qual fora vítima. A partir daí, Trier adota sua típica estrutura de capítulos a partir dos eventos narrados por Joe, cuja versão mais moça é vivida pela estreante Stacy Martin.

O filme deixa bem claro que o visual dentro das histórias é provido pela imaginação de Seligman, alimentada pela narrativa de Joe. Isso permite que Trier justifique inclusive a inserção de elementos gráficos (como o“3+5”, a sequência com a “educação” de Joe ou o momento em que ela estaciona um carro) ou mesmo modifique radicalmente a fotografia em determinados momentos da projeção, algo que ocorre de maneira mais prolongada durante o triste capítulo “Delírio”, quando um melancólico preto e branco toma conta da tela.

A relação da protagonista com o sexo é o centro do roteiro e do arco de Joe, que busca “sentir algo”, por mais passageiro que seja. Com raras exceções, Joe se mostra incapaz de ter sentimentos para com aqueles que a rodeiam, tentando preencher esse vazio com o gozo, usando homens por quem ela pode sentir até repulsa como paliativos para isso. Neste sentido, Joe tem muito em comum com o Brandon de Michael Fassbender, personagem principal de “Shame”.

O coração fechado da mulher só encontra espaço para amar seu pai (Christian Slater) e Jerome (Shia LaBeouf), o rapaz que tirou sua virgindade de maneira humilhante. A rivalidade que ela tem para com a mãe (Connie Nielsen) se traduz quase que em ódio, com o pai no centro desta disputa, que indica uma relação incestuosa (consumada ou não) entre Joe e seu progenitor, com uma solitária gota traduzindo isso para a realidade (Complexo de Electra).

A corajosa interpretação de Stacy Martin carrega todo o longa. A atriz estreante, que possui uma beleza pura, quase angelical, se entrega de corpo e alma e hipnotiza o público em cena com seu desapego, mostrando a evolução de Joe da sua timidez inicial, passando pelo seu apogeu sexual, até o momento que serve como cliffhanger no fim desta primeira parte. As cenas que se passam no quarto capítulo, emocionalmente carregadas, só funcionam graças ao talento da moça.

Stellan Skarsgård, como o pacato Seligman, faz às vezes do espectador, em um papel passivo, como o ouvinte da história de Joe que encontra paralelos nesta com sua própria vida. A despeito de não ser alguém exatamente puro e casto (afinal, é a imaginação dele que assume o caráter visual da película, o que ressalta seu papel como alter-ego do público), ele é o padre confessor, algo irônico considerando os fatores a seguir.

Primeiro, o fato de o personagem ser judeu, sacada genial de Trier considerando suas polêmicas declarações quando do lançamento de “Melancolia”. Segundo, Seligman faz de tudo para “absolver” Joe das condutas que ela considera como seus “pecados”, em uma clara culpa católica, cruz especialmente masoquista para alguém que renega todas as religiões carregar.

Nisso, vemos Charlotte Gainsbourg basicamente se autoimolando em cena, enquanto sua Joe narra para seu benfeitor fatos extremamente pessoais e dolorosos. Com este ato, ela não procura por paz ou absolvição (ela não se acha merecedora disso), mas os motivos para seus instintos se transformarem em uma compulsão, algo que a torna, em seu próprio ponto de vista, uma pessoa maligna.

No elenco de apoio, mesmo com o aposentado precoce Shia LaBeouf a esbanjar uma energia e força até então inéditas e Christian Slater encarnando uma figura serena digna do amor de Joe, quem rouba o filme é mesmo Uma Thurman, em um verdadeiro tour de force como a ensandecida Sra. H, mulher que, tomada pelo ciúme e pela dor, comete um ato indizível para tentar atingir o marido, que queria deixá-la por Joe. Com poucos minutos em cena, Thurman mostra o lado obscuro do amor possessivo, em um espetáculo que transita habilmente entre o trauma e o riso nervoso, naqueles que são os momentos mais tensos da película.

O texto de Trier falha apenas ao deixar claras as suas metáforas, dando pouco espaço para o espectador processar sozinho o que está vendo em um didatismo exacerbado, algo incomum para o cineasta, aliás. Existem ainda alguns jump cuts um tanto quanto estranhos, mas nada que comprometa a arrebatadora experiência de acompanhar mais esta incômoda obra de arte produzida pelo diretor, tão devastadora quanto a música da banda Rammstein que abre e encerra a película. Esperamos que o Volume II, cujo trailer está presente nos créditos finais, mantenha o nível aqui apresentado.

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Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.

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