Violências…

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Neste final de semana assisti ao filme 12 anos de escravidão. Fiquei encantada com o filme de Steve McQueen e com muita vontade de ler o livro, que conta a história real de Solomon Northup, um negro liberto que é sequestrado e vendido como escravo, condição em que passa a viver por 12 longos anos até conseguir que sua história chegasse aos ouvidos daqueles que o conheciam. Em meio a um show de interpretação do ator Chiwetel Ejiofor, o filme também conta com a atuação de Michael Fassbender,  Lupita Nyong’oBenedict Cumberbatch e produção de John Ridley e Brad Pitt. 

As cenas de violências são ‘emudecedoras’…minha garganta parecia estar sendo transpassada, quando finalmente resolvi chorar para aliviar a pressão que as cenas das agressões, chibatadas e violência proporcionam… Um verdadeiro espetáculo de filme! Não é à toa que o filme teve 9 indicações ao Oscar, dentre elas: 1) melhor filme, 2) melhor diretor, 3) melhor ator, 4) melhor ator coadjuvante, 5) melhor atriz coadjuvante, 6) melhor roteiro adaptado, 7) melhor figurino, 8) melhor montagem e 9) melhor design de produção. O filme nos faz pensar sobre o que somos capazes de fazer: fomos capazes escravizando, discriminando, segregando, ‘permitindo’ a existência de regimes ditatoriais, opressores, campos de concentração, prisões arbitrárias. Todas as diferentes formas de violência que direta ou indiretamente permitimos em algum momento da nossa história…

Eu não pensei em escrever sobre o filme aqui no blog, mas o resultado de uma manifestação aqui no Brasil me fez pensar em diversos tipos de violência que nós perpetramos diariamente uns contra os outros… Hoje faleceu um jornalista que cobria uma manifestação na cidade do Rio de Janeiro contra o aumento das passagens. Não foi a primeira vítima e não sei se será  a última…

…mas seja qual for o lado que oprime e que vitima, precisamos repensar nossas atitudes, nosso comportamento, nossos discursos e até o nosso silêncio…

Circulou na internet há pouco, depois de atestada a morte cerebral de Santiago Ilídio Andrade, um texto de autoria de Vanessa Andrade, sua filha, também jornalista:


Fica a saudade de um companheiro sereno e de um pai valente.
Meu nome é Vanessa Andrade, tenho 29 anos e acabo de perder meu pai.
Quando decidi ser jornalista, aos 16, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: vou usar seu sobrenome. Ele riu e disse: então pode!
Quando fiz minha primeira tatuagem, aos 15, achei que ele ia surtar. Mas ele olhou e disse: caramba, filha. Quero fazer também. E me deu de presente meu nome no antebraço.
Quando casei, ele ficou tão bêbado, que na hora de eu me despedir pra seguir em lua de mel, ele vomitava e me abraçava ao mesmo tempo.
Me ensinou muitos valores. A gente que vem de família humilde precisa provar duas vezes a que veio. Me deixou a vida toda em escola pública porque preferiu trabalhar mais para me pagar a faculdade. Ali o sonho dele se realizava. E o meu começava.
Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu.
Sei que ele está bem. Claro que está. E eu sou a continuação da vida dele. Um dia meus futuros filhos saberão quem foi Santiago Andrade, o avô deles. Mas eu, somente eu, saberei o orgulho de ter o nome dele na minha identidade.
Obrigada, meu Deus. Porque tive a chance de amar e ser amada. Tive todas as alegrias e tristezas de pai e filha. Eu tive um pai. E ele teve uma filha.
Obrigada a todos. Ele também agradece.
Eu sou Vanessa Andrade, tenho 29 anos e os anjinhos do céu acabam de ganhar um pai.”

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Uma resposta to “Violências…”

  1. Lindo e emocionante manifestação.. sim, essa é a verdadeira manifestação.. sentimentos bons, puros, verdadeiros. Quando cada um de nós perceber que somente com afeto, tolerância, honestidade, solidariedade e determinação teremos uma sociedade mais justa e consequentemente mais feliz, estaremos no caminho certo.. a estrada é longa, mas temos que acreditar!

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