Archive for the Sexo Category

A química do desejo

Posted in Poesia Erótica, Relacionamento, Sexo, Sexualidade with tags , , , , , , , , , , , , , , on junho 5, 2016 by Psiquê

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A química do desejo não tem uma fórmula certa. Muitas vezes o desejo é despertado dentro de nós a partir dos estímulos mais inusitados: um beijo, um toque, uma cena de sexo, um romance, um cheiro, uma taça de vinho, uma música, um ritmo, um gosto, um olhar, um pensamento, uma proibição

Não há como prever o que e quando nosso desejo pode ser despertado e as experiências são individuais. Algumas pessoas são mais sensíveis e suscetíveis à eferverscência do desejo, outras menos, mas ele sempre existe em algum lugar dento de cada um de nós.

O importante é deixá-lo se manifestar com cuidado e desfrute, sem se censurar demais, mas ao mesmo tempo sabendo vivê-lo da melhor forma. O desejo nos nutre e sabendo fazer um bom proveito dele, a vida ganha um colorido gostoso e importante.

Aproveite, observe-se e vivencie.

Boa semana!

 

A falsa ideia romântica que está arruinando nossa vida sexual

Posted in Comportamento, Sexo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 2, 2015 by Psiquê

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Sabemos que, ao marcar um encontro com nosso parceiro, é difícil que os dois cheguem exatamente na mesma hora no local combinado; e que, por uma questão de lógica, um dos dois terá de esperar pelo outro. No entanto, no que se refere ao sexo, continuamos obcecados pela ideia de “chegar juntos”. Mais do que uma fantasia, parece dessas coisas a serem ticadas na lista de tarefas, ou, mais ainda, uma prova pela qual a nossa vida sexual teria de passar.

Não se trata de algo novo, pois já nos anos 60 os pais da sexologia moderna, Masters e Johnson, explicavam que a ideia do orgasmo simultâneo como símbolo de superioridade sexual do casal é totalmente equivocado, e que “o esforço para coordenar reações fundamentalmente involuntárias leva o homem e a mulher a começarem a se observar mentalmente em vez de se entregarem às sensações do ato sexual”. Conforme destacaram em seu livro Human Sexual Inadequacy, quando os membros do casal assumem um “papel de espectador”, é fácil ocorrer a perda da ereção no caso do homem e a impossibilidade de atingir o orgasmo no caso da mulher.

Por mais que essa ideia tenha sido então desmistificada, o curioso, no entanto, é que, anos depois, ainda pareça tão difícil destroná-la. Referindo-se a um ambiente aberto e intelectualizado como a universidade, o estudo Sexualidade dos estudantes universitários, realizado na Faculdade de Medicina do Chile, revela que 57,6% dos entrevistados ainda vê o orgasmo simultâneo como um dos principais objetivos da relação sexual.

A verdadeira sincronia

Antes de tratar da ideia do orgasmo simultâneo, convém fazer uma reflexão sobre o orgasmo nos casos dos dois sexos. De acordo com um recente estudo da Universidade de Indiana sobre a variação do orgasmo conforme a orientação sexual, tantos os homens quanto as mulheres costumam atingir mais frequentemente o orgasmo em relações mais estáveis do que quando solteiros. A pesquisa inclui alguns dados que apontam nessa direção: cerca de 85% dos homens atingem o orgasmo com parceiras estáveis, com pouca diferença no que tange à orientação sexual, enquanto nas mulheres essa taxa é globalmente de 62,9%, destacando-se que chega a 74,7% em casais homossexuais. Esses dados mostram, portanto, que, se já é difícil que tanto o homem quanto a mulher atinjam o orgasmo no mesmo ato, como não poderia ser ainda mais difícil atingi-lo exatamente ao mesmo tempo?

Os sexólogos Manuel Fernández e Berta Fórnes apresentam em seu livro 100 perguntas sobre sexo o conceito de “sincronia sexual”, explicando que “com cada parceiro com que nos relacionamos temos de poder nos sincronizar para que a relação funcione”, ou seja, que “a sincronia sexual será a confluência de duas pessoas que, com suas inúmeras diferenças, conseguem se unir em uma vida sexual prazerosa para ambos”. Nada que tenha a ver com os orgasmos. Dessa forma, os especialistas tratam de questões como sincronizar a tomada de iniciativas, ou seja, o equilíbrio entre quem dá início à relação sexual; o nível de desejo e de frequência, já que nem sempre as duas pessoas estão com o mesmo desejo nem se sentem satisfeitas com a mesma frequência; os rituais, ou seja, se temos os mesmos gostos no que se refere às práticas sexuais; e, por último, a expressividade, ou seja, se expressamos o afeto e o desejo pelo parceiro da mesma forma.

O orgasmo delas dura mais

Embora se possa conseguir fazer com que o casal tenha uma sexualidade compartilhada e satisfatória para ambos, isso não se traduz necessariamente em chegar ao clímax ao mesmo tempo, pois não se deve esquecer que os dois membros do casal nem sempre dão a mesma resposta sexual. Apesar de os já citados Masters e Johnson, em seus estudos pioneiros sobre a sexualidade humana, terem indicado que na resposta sexual dos dois sexos há mais semelhanças do que se pensava inicialmente, como, por exemplo, que o ciclo de reação sexual (excitação, planalto, clímax e resolução) era igual nos dois sexos, eles registraram também que ocorrem diferenças no desenvolvimento dessas etapas quando o parceiro é do outro sexo.

Entre elas, como destaca a sexóloga Ana Belén Rodríguez, do Centro SEES, está o fato de que “em regra geral, a duração do orgasmo masculino é menor do que a do orgasmo feminino”. Na verdade, analisando os conhecidos gráficos que representam a resposta sexual masculina e feminina, podemos observar que na mulher é mais comum que ocorram diferentes tipos de resposta, e que todas costumam concordar com um tempo de planalto mais longo do que no caso masculino, e por isso costuma ser difícil que o momento do clímax coincida no tempo.

Não se pode esquecer também que não há homem e mulher iguais, e que as respostas sexuais de cada um nem sempre se ajustam aos modelos estabelecidos. “Cada pessoa tem seus ritmos e suas próprias respostas de excitação e formas de alcançar o clímax sexual; tentar fazer com que duas pessoas diferentes cheguem ao mesmo tempo ao orgasmo é bastante complicado”, insiste Ana Belén Rodríguez, que esclarece que “o mais provável é que não se consiga devido a estas diferenças individuais, mas de alguma maneira socialmente aprendemos que o lógico e o mais prazeroso é chegar ao mesmo tempo”, uma ideia que só nos leva a limitar nossa sexualidade a alguns padrões pré-estabelecidos, apesar da riqueza que pode ser conseguida em si.

Do prazer à obsessão

Dando um passo além, a realidade é que essa obsessão por conseguir alcançar o orgasmo ao mesmo tempo leva os casais a muitas frustrações. O primeiro ponto a se levar em conta é que a ideia do orgasmo simultâneo continua perpetuando a ideia de que o orgasmo é a única finalidade do ato sexual. A este respeito, a sexóloga insiste que “se pensamos desta forma, podemos nos frustrar e cercar de uma ansiedade desnecessária e má companheira na viagem do prazer sexual. Não é necessário esclarecer que ansiedade e prazer são conceitos que não combinam”.

De outro lado, a especialista também destaca que focar o encontro sexual em conseguir este objetivo representa “um excessivo controle das sensações, que às vezes pode produzir os efeitos contrários, como dificuldades de ereção no homem e baixa excitação na mulher”. Mesmo assim, destaca a ideia de que, como tudo na sexualidade, concentramos somente em uma parte de sua prática é negativo, porque nos limita. “Obter um nível extra de excitação ao chegar ao orgasmo ao mesmo tempo em que seu parceiro é maravilhoso e pode ser um tempero interessante no jogo sexual, mas se a pessoa só se sente satisfeita desta forma, talvez quando não aconteça e, o que é o mais provável, comecem os problemas. Por que não abrir as opções?”, acrescenta.

Pratique consigo mesmo

Se você tem tudo isso claro e quer, simplesmente, buscar esse orgasmo simultâneo como mais uma brincadeira, entre outras, de casal, sem pressões, e com o objetivo mais de experimentar e explorar a sexualidade do que de chegar ao clímax, a especialista acrescenta algumas ideias. Para começar, a importância de se conhecer primeiro e de, por que não, experimentar sozinho com nosso autoerotismo: “Se conheço perfeitamente meus gostos e minhas reações físicas, minha resposta sexual e seus componentes psicológicos, fica mais fácil controlar minha excitação e meu orgasmo”, diz. Sem dúvida, convém praticar a comunicação entre o casal, pois se queremos buscar a mesma meta será difícil conseguir isso sem conhecer em que parte do caminho está o outro. Assim, é interessante indicar ao parceiro quão excitado você está e ir explicando do que gosta ou não. “Modular a excitação fará parte do jogo”, conta a sexóloga.

Por fim, a diretora do Centro SEES afirma que também podemos trabalhar o controle sobre nosso orgasmo, por exemplo, através dos exercícios de Kegel, ainda que, mais do que ficarmos obcecados por trabalhar os músculos envolvidos no ato, pode ser mais lúbrico para o casal procurar as posturas que mais excitam ou favorecem o clímax. “E, sobretudo, levar em conta o componente psicológico do orgasmo. Não se pode esquecer que às vezes, mais do que uma resposta de nosso corpo, trata-se de uma reação de nosso cérebro. Por exemplo, em certas ocasiões o orgasmo do outro nos excita tanto que nos faz chegar ao nosso próprio, sem que exista uma premeditação ou uma técnica consistente para isso”, acrescenta.

Com todas essas ideias, vamos tentar o orgasmo simultâneo; e, se não conseguirmos, teremos aproveitado enquanto isso, como o casal merece, mesmo que não apareça em nenhum livro.

Fonte: El País

Uma orgia para ir em cadeira de rodas

Posted in Comportamento, Relacionamento, Sexo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 16, 2015 by Psiquê

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Definitivamente eu amei a abordagem deste tema e resolvi trazer para o Espartilho.

O documentário Yes, We Fuck! nos mostrou que pessoas com deficiência podem ter uma vida sexual ativa e satisfatória. No dia 14 de agosto, uma iniciativa em Toronto, no Canadá mostrou ao mundo que elas também podem participar de orgias, mesmo em uma cadeira de rodas. Nesse dia foi realizado em Toronto a primeira festa do sexo mundial, criada especialmente para esse grupo. O evento Deliciously Disabled, claro, é aberto a todos e não apenas àqueles com algum tipo de deficiência.

O evento foi descrito por uma de suas organizadoras, Stella Palikarova, modelo que sofre de atrofia muscular espinhal, como “a queda do Muro de Berlim para a sexualidade das pessoas com deficiência“. A ideia de organizar a festa foi de Stella, como resultado de uma antiga insatisfação, ao constatar a concepção da sociedade de que a libido de uma pessoa que não pode andar não deve estar muito bem, mas como ela mesma disse ao jornal Toronto Sun “muitos que estão em cadeiras de rodas podem ter uma sexualidade satisfatória, até melhor do que muitas pessoas normais. Ao tornar esse evento acessível a pessoas com deficiência, estamos dizendo abertamente que também são seres sexuais”.

Andrew Morrison-Gurza, consultor de pessoas com deficiência, também está entre os organizadores e emprestou sua imagem —nu em uma cadeira de rodas— para o cartaz do evento. Morrison comentava ao jornal britânico Daily Mail: “Queremos dar às pessoas com deficiência a oportunidade de ser protagonistas de uma festa sexual e positiva — algo jamais visto antes—, mas também ensinar àqueles que não têm nenhuma deficiência todas essas delícias. Esse evento foi criado para mostrar que deficiência e sexualidade são acessíveis a todos”. Fátima Mechtab, outra encarregada dos preparativos, disse à S Moda que “a festa está aberta a todos os tipos de corpo, habilidades e orientações sexuais” e vai contar com assistentes sexuais, intérpretes para surdos e todos os tipos de elevadores, rampas e sistemas para facilitar a circulação do grupo que protagoniza a festança.

A sexualidade das pessoas com mobilidade reduzida tem chamado a atenção do público recentemente. O filme As Sessões (2012) já abordava a polêmica questão dos assistentes sexuais em uma história na qual um jornalista e poeta tetraplégico com um pulmão artificial, interpretado por John Hawkes, decide perder sua virgindade nas mãos de sua terapeuta sexual, interpretada por Helen Hunt. Há alguns meses também estreou Yes, We Fuck!, que tentou responder à pergunta que muitos fazem sempre que veem alguém com algum tipo de deficiência. O filme não só demonstrou que esse grupo tem relações sexuais, mas que também se masturba e explora cada centímetro de pele em busca de sensações. Muitos deles têm uma sexualidade complexa, curiosa e aventureira. O documentário faz sucesso na América do Sul e em outras partes do mundo, embora nem tanto nos EUA. “Nosso objetivo era visualizar em imagens o âmbito da sexualidade dessas pessoas, algo que desconhecemos, como seus corpos”, diz Raúl de la Morena, diretor do filme em parceria com Antonio Centeno. “No entanto”, continua, “também quisemos mostrar não só o que a experiência da sexualidade pode fazer pelas pessoas com deficiência, mas também o que a realidade desse grupo pode acrescentar à sexualidade humana. No meu caso, serviu para aprender muitas coisas sobre minha própria sexualidade”.

Carlos de la Cruz é sexólogo, diretor do mestrado de sexologia da Universidade Camilo José Cela e vice-presidente da Associação Sexualidade e Deficiência, que visa melhorar a qualidade de vida de pessoas com todos os tipos de deficiência, com especial ênfase em educar e prestar apoio à sexualidade desse grupo. O especialista vê com bons olhos a realização da festa em Toronto, embora dependa do objetivo de cada um. “Se alguém entra pela porta do desejo, vai acabar se divertindo; mas se entra pela porta da obrigação, o resultado pode ser um pouco diferente, porque às vezes há muito esforço para que as pessoas com deficiência consigam tudo, e o que importa é propiciar. Há um ditado bem conhecido desse grupo que diz: ‘Para que serve uma rampa?’. A maioria das pessoas responde subir escadas. Não, uma rampa é usada para decidir se quero subir a escada ou não”.

A partir dessa associação sabem que melhorar a vida sexual de pessoas com algum tipo de deficiência tem um impacto significativo sobre sua qualidade de vida, mas as barreiras não são sempre físicas nem arquitetônicas; as mentais são as mais difíceis de superar. “O problema é que ainda se confunde sexualidade com relação sexual, e uma pessoa com deficiência pode nunca ter relações sexuais, por isso começa a ser percebida como assexuada. Essa mentalidade, essa ideia errônea sobre sexualidade que ainda persiste, se torna muito clara quando diferenciamos deficiências adquiridas ou de nascença e a maneira de encará-las. Se eu pensar, por exemplo, que minha sensibilidade está no pênis e de repente ele desaparece, eu desabo; mas se eu tiver outra ideia do sexo, busco outras possibilidades e tento sentir outras partes do corpo. Quanto mais próxima a pessoa estiver do modelo padrão de relações sexuais e este for quebrado de repente, mais se sofre. É o que acontece com muitos homens que tiveram lesões na coluna vertebral e estavam acostumados a adotar um papel muito ativo e genital. As pessoas com diversidade funcional que pedem a construção de rampas ou táxis adaptados para transportar cadeiras de rodas não pedem só para elas, também fazem isso para facilitar a vida daqueles que os levam. Deveria ocorrer o mesmo com a sexualidade. Mudar nosso conceito tradicional de sexualidade não é bom apenas para aqueles que têm deficiências, mas para todos.”

Dentro do grupo de pessoas com deficiência, as pessoas com algum problema intelectual são os párias dessa casta, já que, de acordo com De la Cruz, “é necessário que outra pessoa aceite entender suas necessidades sexuais. Me refiro aos cuidadores ou aos pais, que também precisam ser educados. E nem todos são a favor que seu filho se masturbe ou tenha a porta do quarto fechada. Na associação, tentamos tocar vários pontos: oferecer informações, embora não a peçam, e incentivar o desenvolvimento pessoal, porque se a rejeição é ruim, a superproteção também é. Muitas vezes, os corpos dessas pessoas, as que precisam ser vestidas ou ajudadas a se mover, perdem sua privacidade e se tornam corpos tocados por qualquer pessoa. Reivindicamos o direito à intimidade, que possam ser chamados [atrás] das portas, que estas possam permanecer fechadas às vezes. E, finalmente, acredito que as redes sociais de garotos e garotas desse grupo deveriam ser melhoradas, mas não só entre eles, que possam interagir com outras pessoas. Não devemos criar guetos”.

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Cena do filme Carne Trêmula

A polêmica figura do assistente sexual é outro dos temas abordados pelo documentário Yes, we fuck!Uma história protagonizada por Soledad Arnau Ripollés e Teo Valls. Soledad é filósofa, sexóloga, escritora de relatos eróticos, diretora e apresentadora do programa de rádio sobre sexo Acuéstate conmigo (“Durma comigo”) e atriz pós-pornô no curta Habitación (“Quarto”), além de ativista do fórum Vida Independente. Teo é assistente sexual. Soledad, como ela mesma confessou na entrevista coletiva da estreia do documentário, foi a única que não tirou a calcinha no filme, mas justificou em seu discurso, com a ajuda de Teo, já que ela nasceu com uma disfunção que a impede de mexer pernas e braços. A calcinha, para quem quiser saber, era vermelha. “Minha passagem pelo documentário, mostrar meu corpo nu”, conta Soledad, “ajudou-me a me sentir orgulhosa dele, a gostar mais de mim mesma. Existem tantas mensagens: você é defeituoso, assexuado, não é uma pessoa desejável nem sente desejos. A sexualidade está muito genitalizada e é heterossexual e binária. Toda pluralidade é excluída. Todos precisamos de uma boa educação sexual que inclua a diversidade. Não é um fracasso não haver genitais no ato sexual. E se você gosta de penetração e alguém não pode te penetrar com o pênis, pode fazer isso de muitas maneiras, com a língua, com a mão, com brinquedos eróticos.” Para Soledad, a figura do assistente sexual é imprescindível em certas pessoas com um determinado tipo de disfunção, já que sem ela não é possível ter atividade sexual. “Assim como uma pessoa com diversidade funcional precisa de alguém que a ajude a se lavar, a se vestir e a comer… Se quiser se masturbar, tocar-se ou ter sexo virtual, também precisa de assistência. Mas acho que o assistente sexual não é uma pessoa para transar, e sim alguém que te ajuda a transar. Quando você começa a assumir o controle da sua vida e a assumir responsabilidades, é também possível que comece a pensar e desejar experimentar com a sua sexualidade, mas precisará de alguém que tire sua roupa, que mexa suas mãos e as coloque onde você não pode colocar, porque o sexo é um direito, embora não um dever.

Teo Valls mora em Barcelona e chegou à assistência sexual naturalmente, como consequência de seu trabalho como assistente pessoal para pessoas com deficiência. Se para muitos é uma atividade com uma barreira difusa e desconfortável com o mundo da prostituição, para ele isso é muito claro. “Sempre digo que tenho um trabalho sexual e que recebe uma herança do mundo da prostituição, mas não é exatamente o mesmo, já que uma trabalhadora do sexo corre muito mais riscos do que eu. Meu trabalho é ajudar pessoas com algum tipo de diversidade funcional para que tenham sexo quando quiserem, mas não comigo. Posso ajudá-las a ter autoerotismo, a se masturbar, a guiar suas mãos, posso penetrá-las com um vibrador. Sou uma ponte entre o desejo e o prazer “. Teo é a favor que esse profissional seja legalizado, assim como na Alemanha, Bélgica, Suíça, Holanda e Dinamarca, onde também recebem ajuda financeira. “Gostaria que houvesse cobertura legal e que as pessoas com diversidade funcional, que pedissem, tivessem disponíveis algumas horas de assistência sexual.” O contato de Teo com diferentes sexualidades tem mostrado a importância de “aprender a jogar. As possibilidades de prazer são infinitas. A sexualidade tem mais a ver com estar aberto a desfrutá-la do que com a capacidade anatômica ou funcional.”

Morrison-Gurza escreveu um artigo no The Huffington Post intitulado Why Sex With Someone With a Disability is the Best Sex You Could Be Having (Por Que Ter Relações Sexuais Com Uma Pessoa Com Deficiência É o Melhor Sexo Que Você Poderia Ter), no qual destaca os aspectos positivos da sexualidade desse grupo. Entre eles, a necessidade incontornável de conversar e estabelecer acordos e a maior criatividade quando se trata de encontrar novos caminhos para o prazer. “Uma das razões pelas quais ter relações sexuais com alguém com deficiência pode ser melhor é porque você tem de se comunicar, e não quero dizer mais forte!, mais rápido!, Ooh querida!, embora isso também ajude. Quero dizer que você tem que desenhar o sexo, tem que sentar com seu parceiro e dizer o que funciona para você. Tem que falar sobre o que não pode ser feito, o que machuca, o que pode ser divertido ou incrível ou o que você quer provar.” E Andrew continua, “o que eu mais gosto sobre fazer sexo sendo uma pessoa com deficiência é saber que cada vez que faço algo estou redefinindo as normas sexuais e a ideologia do que é desejável dos meus parceiros. Posso excitá-los de maneiras tão diferentes que nunca haviam imaginado antes, com minhas palavras, pensamentos e meu corpo, e desafiar tudo o que achavam que sabiam. Faz com que as pessoas sejam genuínas, saiam do cenário que pensavam ser sexy e acreditem em algo novo em todos os momentos.”

Este texto foi publicado na íntegra e originalmente aqui.

Sexo depois dos 50, por Jane Fonda

Posted in Comportamento, Sexo with tags , , , , , on agosto 10, 2015 by Psiquê

Recentemente o Brasil Post republicou um texto originalmente publicado em The Huffington Post por Yagana Shah, falando sobre 7 coisas que Jane Fonda nos ensinou sobre sexo depois dos 50. Como ainda temos alguma estrada até lá, acho que se já nos anteciparmos, podemos viver melhor e desencanar sobre algumas questões.

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Jane Fonda sabe o que é sexo bom. E não apenas por causa de sua bem-sucedida (e de certa forma sexy) série de vídeos de ginástica. A atriz, de 77 anos, nunca evitou falar sobre sua vida sexual, especialmente à medida que foi ficando mais velha. Fonda disse que uma vida sexual satisfatória é uma das coisas mais importantes nessa fase da vida e até afirmou que quando está fazendo amor com seu parceiro, Richard Perry, pode imaginá-lo como ele era décadas atrás.”

Aqui estão algumas dicas de Fonda para ajudar a inspirá-la na cama.

  1. Se não usar, vai perder – “Se você quiser sexo, precisa ser flexível, permanecer saudável e tem de se sentir bem sobre si mesma”;
  2. Sexo pode ajudar a mantê-la jovem – “Como ainda tenho uma boa aparência? Devo 30% aos meus genes, 30% a uma boa vida sexual, 30% devido aos esportes e estilo de vida saudável com nutrição apropriada e os outros 10% tenho de agradecer ao meu cirurgião plástico”;
  3. Confiança é tudo – “É impossível ter uma verdadeira intimidade com alguém se não gostar de si mesma”;
  4. Os melhores dias de sua vida sexual ainda podem estar por vir – “Aos 74, minha vida sexual nunca tinha sido tão satisfatória. Quando era jovem tinha muitas inibições – não sabia o que queria”;
  5. Pessoas mais velhas fazem sexo. Supere isso – “Acho que à medida que a população em geral envelhecer, o tabu sobre o sexo em idade mais avançada será menor. Porque os baby boomers [geração nascida após a Segunda Guerra, entre 1946 e 1964] pensam que inventaram o sexo, sabe? Seus joelhos e quadris vão cair antes de seu desejo sexual”;
  6. Pare de se preocupar com sua aparência… e comece a ter relações sexuais em vez disso – “Vejo pessoas que não são tradicionalmente bonitas, mas quando têm uma boa vida sexual, isso fica evidente”;
  7. Pegue leve – “Se você passou por um longo período de celibato e depois começar um caso amoroso, saiba que sua vagina provavelmente vai precisar de atenção.”

Puro preconceito

Posted in Comportamento, Curiosidades, Profissão, Sexo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 27, 2015 by Psiquê

678727_35Talvez minhas ideias neste post causem mal estar, mas há algo que preciso compartilhar aqui e considero nada mais do que puro preconceito, enraigado em uma sociedade extremamente machista, preconceituosa e (muitas vezes, hipócrita).

No Saia Justa Verão da semana passada, os meninos lançaram o tema prostituição, enquanto negócio, na pauta de discussão. Na ocasião, Léo Jaime relatou uma experiência pela qual passou em Amsterdam, em que passava pelo Red Light District, uma área onde a prostituição é comum (e legalizada): uma das profissionais saiu de uma casa de prostituição e seu marido/namorado/parceiro a esperava na porta, vindo do trabalho, com uniforme da companhia de luz. Ao vê-la, deu um selinho e seguiu de mãos dadas para casa. Na sequência, ele indaga aos demais apresentadores se eles lidariam bem com a possibilidade de sua esposa trabalhar como prostituta.

Certa vez, também conversando com uma psicóloga que gosto muito falei sobre este tema e ela destacou as dificuldades pelas quais passam as pessoas que trabalham se prostituindo e quando querem assumir um relacionamento estável ou ter filhos, sofrem preconceito de seus parceiros ou da sociedade.

Foi então que comecei a pensar que tudo isso só existe porque vivemos em uma sociedade absurdamente machista e preconceituosa, na qual os homens se gabam por pagar pelo sexo, mas consideram inferiores as mulheres (ou homens) que vendem o serviço.

Se a prostituição fosse realmente encarada como um profissão, na qual a pessoa vende um serviço e fora do trabalho vive como outra pessoa que exerça uma profissão qualquer, não haveria sentido algum em olhar torto, fazer piadinha, tratar mal  ou condenar aqueles que fazem desta uma profissão. Mas estamos muito distantes de uma sociedade que consiga deixar o preconceito de lado e respeitar o outro se a sua prática ou suas escolhas forem de encontro ao que se pensa ser certo ou moral.

Na minha opinião esta discussão demonstra o mais puro preconceito e machismo (no caso da experiência brasileira). Mas isso é só uma opinião…que não podia deixar de compartilhar com vocês.

Fiquem bem e respeitem o outro, sempre, independente das escolhas dele.

Oral

Posted in Erotismo, Sexo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on dezembro 13, 2014 by Psiquê

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Li na revista GQ Brasil de outubro passado (edição 43), um texto bem interessante de Mariliz Pereira Jorge, que compartilho aqui com vocês.

“Sexo oral é como beijo na boca, tem que encaixar. Com uma diferença: se a gente não gosta do beijo de cara é difícil que a situação se reverta, porque ninguém dirá algo como “feche mais a boca”, “não enfie a língua na minha garganta”, “pare de babar”. O beijo é o curriculum vitae do amor na prática. [ e como…] É a primeira aprovação para aqueles três meses iniciais. A gente não desiste de uma relação no início por várias razões, por causa do beijo rescindimos o contrato.

Mas dificilmente alguém pula fora porque o sexo oral é ruim ou só dá para o gasto. Infelizmente nem sempre quem ajoelha reza com louvor. Nem é falta de fé, é falta de jeito. Bate uma insegurança enorme de todos os lados. Talvez você não tenha certeza até hoje onde raios fica o ponto G, duvide mesmo de sua existência. A mulherada passa pelas mesmas incertezas. Ainda mais quando está com um parceiro novo.

Uma coisa fique bem clara: tem mulher que sente medo de pinto. Algumas têm nojo. E há várias que não sabem exatamente o que fazer com ele. O mundo está um pouco diferente – ainda bem – e a gente conquistou aos poucos o direito de transar com quantas pessoas quisermos. Mas, ao longo da vida, as mulheres ainda têm menos parceiros sexuais do que os homens. Isso significa menos experiência, menos rebolado na hora de cair com a boca na botija. Merecemos um crédito se a coisa sair meio desajeitada no começo. E contamos com a sua ajuda.

Minhas amigas falam em coro que só existem duas coisas piores do que um homem que não sinaliza se está gostando do boquete: quando vocês empurram a nossa cabeça em direção ao pinto e quando insistem para que a nossa boca dê um jeito naquele ser inanimado e murcho.

Sim, tem mulher que não gosta. Mas forçar a barra só vai deixá-la constrangida para o que realmente interessa. Sim, não é justo que você passe um tempão lá se lambuzando e ela, nada. Mas se a história vale a pena, só o tempo, carinho e confiança para que a parceira fique à vontade e descubra as sete maravilhas de chupar um pinto. E quando sobra vontade nem a falta de técnica atrapalha.

Dito isso, outro potencializador de sexo frustrado é você querer transar sem vontade e insistir que a mulher o deixe no ponto com um boquete. Ela pode até tomar a iniciativa, mas a decisão para isso deve ficar com ela. Mesmo as garotas que gostam da brincadeira – e pode ter certeza que muitas gostam – desanimam com aquela imagem tímida e chocha à sua frente. Mulheres se excitam com um homem pelado, acham o pinto bonito, desde que esteja duro, brilhante e bem disposto.

Quando se conhece alguém tudo é novidade. Do mesmo jeito que a gente não sabe se você gosta mais de transar de manhã ou à noite, é quase impossível saber como você prefere o sexo oral. Existe uma infinidade de possibilidades. Pego com força ou de levinho, ou nem ponho a mão? Lambo, chupo ou faço sucção? Aperto seus testículos ou só faço um agrado? Mais rápido ou devagar?

A gente vai no instinto, e ele pode nos levar ao caminho errado. Você fica frustrado e sua parceira se acha incapaz. O índice de acertos será infinitamente maior se você fizer apenas uma coisa: falar. Diga do que gosta, o que prefere, diga que está gostoso, que está incrível. É estimulante saber que todo mundo está se divertindo.

E calma lá com a euforia. Não vale explodir de felicidade na boca alheia sem aviso ou acordo prévio. Algumas – certíssimas – se preocupam com DSTs, outras vão ficar constrangidas sem saber se cospem ou engolem. O combinado não é caro, e vale pra tudo na vida.

Coisas que as mulheres adoram no sexo…

Posted in Sexo on setembro 8, 2014 by Psiquê

Eu achei este post do Paixão Apimentada simplesmente o máximo. Tenho certeza de que muitas mulheres se identificaram com vários destes itens e achei superválido republicá-lo aqui com vocês.
Um beijo a todos e ótima semana.

Paixão Apimentada

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Pra você que acha que nunca ninguém lhe fingiu orgasmo, informe-se sobre as principais lamentações do sexo feminino na hora H.
Ás vezes você acha que sabe muito sobre sexo e mulheres… E não é nada disso!
Homens, no geral, costumam falar que mandam muito bem no sexo, que conhecem cada parte do corpo da mulher, que as fazem ter orgasmo múltiplos, que amam sexo oral.

Atenção Homens vocês estão totalmente errados!!!

Acontece que as mulheres, secretamente revelam que não andam 100% satisfeitas com o sexo que têm feito. Pra entender melhor as queixas, perguntando o que elas mais gostam e o que mais sentem falta no sexo. Choveram lamentações – sinal de que os homens precisam trabalhar (e muito!) pra não perderem pra concorrência.

Segue uma lista do que nós mulheres gostamos…

1- Sexo oral, com um dedo na porta da frente e outro na porta de trás.
2-…

Ver o post original 506 mais palavras

Clube de Vênus

Posted in Comportamento, Erotismo, Sexo, você on janeiro 21, 2014 by Psiquê

Para aqueles que ainda não conhecem, o Clube de Vênus, dou algumas pistas…

La toilette de Venus, William Bouguereau (1825-1905)

La toilette de Venus, William Bouguereau (1825-1905)

Clube de Vênus é um ‘clube secreto’ que pretende reunir mulheres que buscam melhorar e valorizar sua autoestima, compartilhando experiências e ideias. O objetivo é aprofundar o autoconhecimento, buscando se valorizar, se amar, se respeitar e conhecer seus potenciais, sua sensualidade e sua sexualidade.

Nossos encontros ocorrem em datas específicas e as interessadas precisam ser indicadas por mulheres que já fazem parte do clube. Quem tiver interesse deve escrever para oclubedevenus@gmail.com, dizendo nome da participante que te indicou, idade e contatos. Responderemos com as regras e as datas das próximas reuniões.

Nem todas as pessoas poderão participar e há uma limitação máxima de pessoas por encontro. Esperamos conseguir atender a todos as interessadas!

Sejam todas bem-vindas ao nosso Clube de Vênus!

Caso você queira indicar mais alguém escreva para avaliarmos a possibilidade, lembre-se que o número de vagas é limitado, mas teremos outros encontros.

Ninfomaníaca – Vol. I

Posted in Comportamento, Cultura e Arte, Relacionamento, Sexo with tags , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 15, 2014 by Psiquê

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Ontem assisti ao filme Ninfomaníaca, do cineasta Lars von Trier, mesmo que fez dois outros filmes que gostei: Dogville e Melancolia. Eu confesso que queria que os dois volumes do filme fossem lançados simultaneamente, mas se não tem jeito. Espero apenas que a segunda parte supere a primeira que já foi bem interessante.

A análise de Thiago Siqueira, para o portal Cinema com Rapadura, é bastante coerente com minha impressão do filme

Ao contrário de outras espécies, os humanos racionalizam o ato do coito. O que é um mero instinto para a maioria dos animais, ganha contornos emocionais para as pessoas, que atribuem ao sexo um valor moral pela cultura na qual o indivíduo se insere, seja ela mais liberal ou conservadora. O cinema de Lars von Trier lida com as angústias humanas (focando mais recentemente em comportamentos depressivos e autodestrutivos), o que torna este “Ninfomaníaca – Vol. I” um passo lógico na filmografia do cineasta.

A despeito de toda a polêmica que cercou sua produção, o público não encontrará, ao menos nesta primeira metade da obra (dividida em dois volumes), nada que o ser humano ocidental médio maior de idade não tenha dito ou feito em sua privacidade. Há uma franqueza ao se tratar de sexo no cinema que o grande público pode não estar  acostumado, mas nada excessivamente chocante. Filmes como“Azul é a Cor Mais Quente” ou “9 Canções” foram muito mais ousados e explícitos, do ponto de vista visual.

O fato é que a narrativa proposta por Trier não foi comprometida por eventuais cortes requisitados por produtores. A produção não é um espetáculo pornográfico. Sim, o sexo é uma pedra fundamental na jornada mostrada na tela, mas o ato em si não é o fim, mas sim um meio para a narrativa ser exposta.

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Na trama, Seligman (Stellan Skarsgård) encontra uma mulher machucada e inconsciente em um beco e a leva para sua casa até que ela se recupere. Ela, Joe (Charlotte Gainsbourg), passa então a narrar para o seu benfeitor sua história, e continuamente afirma que seu comportamento sexual fez com que merecesse o espancamento do qual fora vítima. A partir daí, Trier adota sua típica estrutura de capítulos a partir dos eventos narrados por Joe, cuja versão mais moça é vivida pela estreante Stacy Martin.

O filme deixa bem claro que o visual dentro das histórias é provido pela imaginação de Seligman, alimentada pela narrativa de Joe. Isso permite que Trier justifique inclusive a inserção de elementos gráficos (como o“3+5”, a sequência com a “educação” de Joe ou o momento em que ela estaciona um carro) ou mesmo modifique radicalmente a fotografia em determinados momentos da projeção, algo que ocorre de maneira mais prolongada durante o triste capítulo “Delírio”, quando um melancólico preto e branco toma conta da tela.

A relação da protagonista com o sexo é o centro do roteiro e do arco de Joe, que busca “sentir algo”, por mais passageiro que seja. Com raras exceções, Joe se mostra incapaz de ter sentimentos para com aqueles que a rodeiam, tentando preencher esse vazio com o gozo, usando homens por quem ela pode sentir até repulsa como paliativos para isso. Neste sentido, Joe tem muito em comum com o Brandon de Michael Fassbender, personagem principal de “Shame”.

O coração fechado da mulher só encontra espaço para amar seu pai (Christian Slater) e Jerome (Shia LaBeouf), o rapaz que tirou sua virgindade de maneira humilhante. A rivalidade que ela tem para com a mãe (Connie Nielsen) se traduz quase que em ódio, com o pai no centro desta disputa, que indica uma relação incestuosa (consumada ou não) entre Joe e seu progenitor, com uma solitária gota traduzindo isso para a realidade (Complexo de Electra).

A corajosa interpretação de Stacy Martin carrega todo o longa. A atriz estreante, que possui uma beleza pura, quase angelical, se entrega de corpo e alma e hipnotiza o público em cena com seu desapego, mostrando a evolução de Joe da sua timidez inicial, passando pelo seu apogeu sexual, até o momento que serve como cliffhanger no fim desta primeira parte. As cenas que se passam no quarto capítulo, emocionalmente carregadas, só funcionam graças ao talento da moça.

Stellan Skarsgård, como o pacato Seligman, faz às vezes do espectador, em um papel passivo, como o ouvinte da história de Joe que encontra paralelos nesta com sua própria vida. A despeito de não ser alguém exatamente puro e casto (afinal, é a imaginação dele que assume o caráter visual da película, o que ressalta seu papel como alter-ego do público), ele é o padre confessor, algo irônico considerando os fatores a seguir.

Primeiro, o fato de o personagem ser judeu, sacada genial de Trier considerando suas polêmicas declarações quando do lançamento de “Melancolia”. Segundo, Seligman faz de tudo para “absolver” Joe das condutas que ela considera como seus “pecados”, em uma clara culpa católica, cruz especialmente masoquista para alguém que renega todas as religiões carregar.

Nisso, vemos Charlotte Gainsbourg basicamente se autoimolando em cena, enquanto sua Joe narra para seu benfeitor fatos extremamente pessoais e dolorosos. Com este ato, ela não procura por paz ou absolvição (ela não se acha merecedora disso), mas os motivos para seus instintos se transformarem em uma compulsão, algo que a torna, em seu próprio ponto de vista, uma pessoa maligna.

No elenco de apoio, mesmo com o aposentado precoce Shia LaBeouf a esbanjar uma energia e força até então inéditas e Christian Slater encarnando uma figura serena digna do amor de Joe, quem rouba o filme é mesmo Uma Thurman, em um verdadeiro tour de force como a ensandecida Sra. H, mulher que, tomada pelo ciúme e pela dor, comete um ato indizível para tentar atingir o marido, que queria deixá-la por Joe. Com poucos minutos em cena, Thurman mostra o lado obscuro do amor possessivo, em um espetáculo que transita habilmente entre o trauma e o riso nervoso, naqueles que são os momentos mais tensos da película.

O texto de Trier falha apenas ao deixar claras as suas metáforas, dando pouco espaço para o espectador processar sozinho o que está vendo em um didatismo exacerbado, algo incomum para o cineasta, aliás. Existem ainda alguns jump cuts um tanto quanto estranhos, mas nada que comprometa a arrebatadora experiência de acompanhar mais esta incômoda obra de arte produzida pelo diretor, tão devastadora quanto a música da banda Rammstein que abre e encerra a película. Esperamos que o Volume II, cujo trailer está presente nos créditos finais, mantenha o nível aqui apresentado.

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Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.

Azul é a cor mais quente

Posted in Cultura e Arte, Relacionamento, Romance, Sexo with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 8, 2014 by Psiquê

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Eu não tenho como transmitir em palavras o que é o filme Azul é a cor mais quente…o filme tem enquadramentos que evocam sensações impressionantes: os closes no rosto, nos olhos, na boca, o cabelo ‘desgrenhado’, tudo tem um toque sensual no filme…

Trata-se de uma linda história de amor, não importa se é um amor homo ( neste caso específico lésbico) ou hétero, pois ele envolve a plateia acima de qualquer preconceito. A despeito de todas as críticas terem me alertado de que algumas pessoas abandonam a sala de cinema no meio do filme diante das cenas de sexo entre Adèle e Emma, em plena terça-feira, a sala de cinema ficou lotada até 0h53 (horário de término do filme, depois de 2h59 de exibição).

Essa análise no site Adorocinema resume bem a atmosfera de descobertas, sensações e sentimentos que o filme evoca ao contar a história de uma adolescente chamada Adèle que lida com descobertas e conflitos sobre si mesma e seus sentimentos. O título original da obra seria A vida de Adèle , mas a versão brasileira veio com influência do título da versão americana e na história em quadrinhos que a inspirou.

Uma jornada de descoberta  (autoria de Lucas Salgado)

“A passagem da adolescência para o dia a dia adulto é um momento difícil de viver e ainda mais difícil de explicar. Por isso, são poucos os filmes que realmente se arriscam em traçar este caminho. E este é o caso de Azul é a Cor Mais Quente. Esqueça tudo o que leu sobre o filme. Não se trata de uma obra sobre duas mulheres que “se pegam” o tempo todo. Trata-se, sim, de uma produção ímpar sobre descoberta da juventude. O amor e o sexo estão ali, é claro, mas como pano de fundo para algo bem mais complexo.

Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que divide sua rotina entre completar o ensino médio e dar aulas de francês para crianças. Determinado dia, ela conhece Emma (Léa Seydoux), uma artista plástica de cabelos azuis. As duas começam a se conhecer e dão início a um relacionamento intenso.

O filme tem em sua longa duração um dos seus pontos positivos. Suas quase três horas ajudam o espectador a conhecer detalhadamente sua protagonista. Quando Adèle conhece Emma, nós já temos uma boa ideia da fase de vida em que se encontra a primeira. Sem saber o que quer, ela faz aquilo que se espera de uma garota de 15 anos. Conversa com as amigas, flerta com garotos etc. Até o dia em que conhece o novo.

Ao mesmo tempo em que a protagonista vai se descobrindo, ela vai conhecendo o mundo. E ainda assim, no sentido geral, parece um pouco perdida. O fato do diretor Abdellatif Kechiche dar à sua personagem o nome de sua protagonista ainda colabora para dar ao longa um ar quase documental. Obviamente, Exarchopoulos não é a Adèle do filme, mas se entrega de forma tão impressionante que o resultado é fenomenal.

Conhecido pelos trabalhos em O Segredo do Grão e Vênus Negra, Kechiche realiza mais um trabalho incrível, adotando novamente a naturalidade como sua marca. Nenhuma das atrizes usou maquiagem para os papéis, o que reforça suas belezas e ainda dá ao longa um ar muito particular, fugindo da plasticidade do cinema hollywoodiano. Outra opção formidável do cineasta foi rodar o filme em 2.35:1. Usado classicamente em faroestes como Era uma Vez no Oeste ou épicos como Lawrence da Arábia, o formato se tornou cada vez mais comum nos últimos tempos com a propagação do widescreen. Ainda assim, é usado na maioria das vezes para reforçar cenários ou efeitos visuais. Em Azul é a Cor Mais Quente, não tem nada disso. O diretor usa uma razão de aspecto alta para contar uma história muito intimista. O resultado é perfeito e vemos Adèle, por mais que esteja sempre em destaque, também presente em um ambiente amplo, aberto a novas situações ou novos personagens. E isso também vale para Emma.

A diferença de classes, tema recorrente na cinematografia do diretor franco-tunisiano, está presente aqui, e também de forma bem natural. Enquanto Léa é um fruto de uma família de intelectuais e sonha em ser uma artista, Adèle possui pais mais simples, que não dispensam uma boa macarronada e são objetivos na hora de pensar no futuro. Kechiche levanta vários temas, mas não perde tempo transformando qualquer um deles em um impedimento para a relação.

A trama é inspirada livremente nos quadrinhos homônimos de Julie Maroh. O diretor faz questão de ressaltar a independência com relação à HQ, mas é inegável a influência, principalmente na fotografia de Sofian El Fani. O azul não está só no título brasileiro ou nos cabelos de Emma. A cor está presente durante toda a produção, seja nos figurinos (principalmente de Adèle), seja nos próprios ambientes, que parecem debaixo de um filtro azul.

La Vie d’Adèle (no original) é construído através das atuações de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Elas brilham tanto que foram consideradas coautoras pelo júri de Cannes e acabaram levando a Palma de Ouro ao lado do diretor, o que não foi nenhum exagero. Elas se entregam de corpo e alma ao longa e protagonizam no mínimo três cenas memoráveis: a tão falada cena de sexo; a cena em que brigam; e a sequência num café.

A comunhão entre as duas atrizes é tão impressionante que em alguns momentos o espectador as verá sim como um ser único. Por causa disso, não há a possibilidade de alguém não se envolver com a relação ou sofrer com os momentos em que discutem.

Não se trata de um filme militante sobre um relacionamento homoafetivo. E por causa disso acaba marcando ainda mais o espectador. O relacionamento de Adèle e Emma é construído de forma muito delicada e inteligente. Um filme que mostra a força do amor, seja para construir, seja para destruir. Que mostra as maravilhas, as incertezas e as dificuldades de uma juventude que não sabe o que quer, mas que ao mesmo tempo quer tudo.

O título original destaca que este é o capítulo 1 e 2 da saga de Adèle. É torcer para que diretor e atriz queiram continuar com a história. Pois ao final dos 177 minutos de Azul é a Cor Mais Quente, a sensação que fica é a de quero mais”

Imperdível!!!! Recomendo muito!

Estou até agora encantada com o que Kechiche conseguiu com esta obra.

Obs: A quadrinhista Julie Maroh, autora do HQ que teria inspirado a obra, fez sérias críticas a Kechiche em relação às falhas na interpretação das cenas de sexo, veja aqui. Lésbica assumida, Maroh reclama da falta de uma consultoria lésbica, mas ela própria admite ter se recusado a se envolver na adaptação cinematográfica da sua obra, dando assim mais liberdade para Kechiche imprimir sua visão. Mesmo assim, lamenta a idealização do sexo homossexual por um prisma masculino.