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Dilemas femininos…

Posted in Comportamento, Profissão with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 31, 2011 by Psiquê

Via Aliciante

Nossa, eu estava buscando palavras adequadas que pudessem refletir aqui, uma certa inquietude que tem rondado meus pensamentos, quando encontrei no site da Consultoria Adigo, uma palestra sobe os dilemas da Mulher Executiva, da qual retiro um trecho para partilhar com vocês:

“Hoje o que mais caracteriza a mulher executiva são seus dilemas com relação ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Apesar de discursarmos a altos brados sobre a maior importância da qualidade do que da quantidade de tempo dedicado à família, no fundo nós mesmas, inconfessadamente, não nos convencemos disso e somos torturadas pelo maior dos males femininos – o sentimento de culpa. Criamos ao longo do histórico de conquistas femininas uma expertise em criar canais de alimentação da culpa.

A primeira fonte é o perfeccionismo, traço bastante comum às mulheres executivas. Com todos os testes implícitos e explícitos que enfrentamos na arena profissional, estabelecemos que precisamos ser nada mais do que perfeitas – como profissional, chefe, mãe, esposa, dona de casa, estudante, filha, nora, etc. Não nos contentamos com menos do que o melhor.

Desenvolvemos uma capacidade crítica apuradíssima, mas que se torna cruel quando se trata de nós mesmas. É dedicado muito menos tempo às pequenas e grandes vitórias do que à tortura do que percebemos como erro ou ponto de melhoria.

Ao perfeccionismo, atrelado à enorme capacidade de doação da mulher, leva a priorização do externo, dos outros, em detrimento a si mesma. O outro, a necessidade do outro é sempre prioridade e nos deixamos para trás.

Isso tudo, sem falar na priorização dos deveres em relação aos direitos, ou pior, do prazer. Primeiro atacar o que deve ser feito e depois, se sobrar tempo, o prazer. Até o tempo que, oficialmente, dedicamos a nós – fazer unhas, ginástica, terapia – muitas vezes carregam em si mais obrigações (com imagem, por exemplo) que prazeres…”

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Fazer 30 anos

Posted in Comportamento with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on junho 8, 2010 by Psiquê

Como eu já comentei aqui, neste ano completarei 30 anos de idade. Não nego que isso traz para mim alegrias e receios em relação ao que está por vir. Encontrei um texto bem interessante na Internet que fala sobre essa fase.

Fazer 30 anos

Affonso Romano de Sant’Anna

“QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural.

Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos.

Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado.

A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente.

Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar. Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema.

Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó. Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás.

Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar. (13.10.85)

O texto acima foi extraído do livro “A Mulher Madura“, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1986, pág. 36.