Escreve-se o que não pode ser dito

A psicanalista lacaniana e escritora francesa, Catherine Millot veio ao Brasil para eventos nas faculdades de letras da UFMG e da UFRJ. Ela foi entrevistada pelo Globo e falou sobre questões bastante interessantes, que compartilho aqui com vocês para pensarmos.. É dela a frase ‘Escreve-se o que não pode ser dito’.

Tomasz Dziubinski 3

Assinada por Iara Pinheiro, leiam a entrevista a seguir:

“Sou doutora em filosofia e psicanalista. Dei aulas na Universidade Paris VIII por 38 anos e, desde 1980, atendo em meu consultório. Tenho livros publicados sobre psicanálise e uma coleção sobre escritores. Depois comecei a escrever obras autobiográficas sobre minha análise e como me tornei escritora.”

Conte algo que não sei.

Para uma mulher, o caminho é muito longo e complicado para chegar ao ponto de se abandonar. Refiro-me à capacidade de se abandonar ao Universo. É muito mais difícil e talvez seja menos tranquilo do que se abandonar a um homem. A gente tem o interesse de ter alguma garantia com homens. Para se abandonar a um outro, aquilo precisa ser um pouco certo, senão é muito perigoso.

O que é se abandonar?

Não é tão fácil explicar. Interesso-me bastante pelo assunto das místicas. Não por questões religiosas, sou ateia. O que me interessa é a mística laica. Os estudos sobre a mística francesa a definem como uma viagem, de muitas etapas. Uma delas é a quietude, que pode ser confundida com a tranquilidade, mas não é isso. Trata-se da cessação da palavra interior. A escrita tem o lugar de mística nesse sentido porque promove o silêncio interior. O que pode haver de comum entre a escrita e a mística é a travessia da fronteira do sentido. Quando experimentei, muito jovem, o amor percebi como uma experiência da tristeza, de angústia, de desamparo e abandono. No meu livro, conto sobre o trajeto entre ser abandonada e se abandonar. A passagem da angústia, daquele abismo que se abre por ser abandonada, à experiência de um vazio contemplativo e sereno.

Na quietude não existe o conflito? É difícil chegar lá?

Sim. Chega-se lá por acaso e por um momento. Ninguém chega lá por esforço.

O silêncio é total? A escrita é uma maneira de ouvir a si mesmo?

Não é um silêncio total. Há uma diferença entre a palavra e a letra. Certo que o gera a escrita é uma conversa interior, mas na hora que a letra se coloca ali é como se fosse a cessação da fala interior. A letra escreve sozinha.

Como assim?

Quando estamos no campo da palavra, ficamos cativos do sentido. Mas quando se escreve, o campo da letra, é outra coisa. Escreve -se o que não pode ser dito. O escrito é aquilo que não se conversa. Por isso é difícil falar do que se escreve. É como um sonho nesse sentido. Você pode contá-lo, mas ele segue uma operação dele mesmo. E a escrita também. Ela é um veículo de investigação e de pesquisa. Tenho uma questão, não sei onde me leva, mas avanço nela escrevendo. Acredito que a escrita produz algo de novo. Começo um texto e vejamos onde nos leva. E acredito que pode provocar esse mesmo estado de quietude no leitor.

Clarice Lispector falou que “Viver não é relatável”. É possível escrever sobre tudo?

Quando se escreve, a gente se situa na fronteira daquilo que não é possível de ser dito. Essa é experiência da escrita. Existem coisas que não consigo dizer, mas continuo escrevendo. Quando escrevemos, é possível abrir um caminho.

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A escrita consome? Esse apaziguamento tem um custo?

Uma vida, é isso que me custa. Não é um caminho que se faz de uma vez por todas. É preciso sempre refazê-lo.

Onde a psicanálise e a literatura se encontram?

A escrita foi uma continuação do meu processo de análise.

Com a tradução, muita coisa fica perdida?

Se a entrevista fosse em inglês, a perda seria maior. (Risos). A gente vai perder, mas perdemos sempre. É uma das lições da psicanálise. Em todo caso, há sempre o momento em que você tem que aceitar a perda.

 

3 Respostas to “Escreve-se o que não pode ser dito”

  1. Excelente! Obrigado por postar. Esta relação com a escrita é impressionante, escrever e não conseguir entender de onde vem exatamente a concepção da ideia.

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